Desejo, humor e liberdade nos quadrinhos de Germana Viana
Por Gabriela Borges (Mina de HQ)
Germana Viana é uma das artistas mais provocadoras e inventivas das histórias em quadrinhos brasileiras. Desenhista, roteirista e editora, construiu uma carreira autoral e independente, marcada pela liberdade narrativa.
Suas histórias são construídas a partir da ficção científica, do horror, do erotismo e da fantasia. Gênero e sexualidade estão sempre lá, com humor e sagacidade. Suas personagens não existem para se adequar, mas para expandir possibilidades: corpos livres, desejantes, protagonistas de suas próprias histórias. A forma como ela escreve e desenha traduz a complexidade das experiências de vida, principalmente as nossas, LGBTQIAPN+.
Imaginar outros corpos, outras histórias
Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço, série lançada em 2013 que a tornou amplamente conhecida, nos leva a imaginar outras possibilidades de existência. O mesmo acontece com As Empoderadas, Nós Quatro, Só Mais Uma História de uma Banda, Ménage (criada em parceria com Laudo Ferreira e Marcatti). A série Gibi de Menininha, que publica desde 2016 com outras artistas brasileiras, mostra que terror e erotismo (putaria, sim) não são adorno nem provocação gratuita, mas uma linguagem.
As histórias de Germana exploram relações. Suas personagens não são idealizadas, mas atravessadas por contradições, humor, conflitos, fragilidades, afetos e potência. Ao longo dos anos, sua obra também se expandiu para adaptações literárias e projetos coletivos, como Razão e Sensibilidade, Carmilla, Era Uma Vez e Outros Contos de Júlia Lopes de Almeida e Noite de Almirante e Outros Contos de Machado de Assis, além de participações em coletâneas como Orixás: Renascimento, Orixás: Griô e Quadrinhos Queer. Essa diversidade mostra sua capacidade de transitar por diferentes territórios narrativos sem perder seu estilo próprio.
Seu trabalho abre caminho para recusar limites e clichês impostos por um mercado historicamente excludente. Isso aparece tanto nos temas quanto na forma como a artista constrói suas narrativas. Ela rompe com um sistema que ainda insiste em reduzir corpos dissidentes à objetificação e aos estereótipos.

Uma trajetória em movimento
Nascida em Recife e radicada em São Paulo, Germana iniciou sua trajetória nos anos 1990 ilustrando livros infantojuvenis. Transitou por diferentes funções no mercado, como designer, letrista e agente de artistas brasileiros no circuito norte-americano. Em 2013, passou a se dedicar às suas próprias histórias. Essa virada na carreira marcou o início de uma obra que vem ocupando um lugar próprio nos quadrinhos brasileiros e abrindo espaço para novas gerações de artistas.
Ao longo dos anos, ela recebeu prêmios como o HQMix e o Angelo Agostini, e foi indicada ao CCXP Awards como melhor quadrinista brasileira. São reconhecimentos a um trabalho consistente e uma vontade de produzir, publicar e circular histórias que rompem padrões estabelecidos.
A carreira de Germana Viana mostra que os quadrinhos podem ser um espaço de invenção radical, onde humor, desejo, crítica e imaginação convivem tranquilamente. Homenageá-la na Poc Con 2026 é reconhecer uma artista que, há mais de uma década, vem deslocando limites e ampliando o que é possível contar nos quadrinhos brasileiros. Uma autora que desenha mundos e, ao fazê-lo, redesenha também as possibilidades de quem pode existir dentro deles.
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Gabriela Borges é jornalista e mestre em antropologia. Em 2015, fundou a Mina de HQ, plataforma multimídia de divulgação de histórias em quadrinhos, incentivo à leitura e debates sobre gênero, diversidade e representatividade. Foi finalista dos prêmios Jabuti (2022) e Global Arts Prize (2025), e vencedora dos troféus HQMIX (2023 e 2021) e Angelo Agostini (2021). É co-organizadora de “Quadrinhos queer” (Skript, 2020), e co-autora de “Quadrinhos, diversidade e insurgência” (Kipuka, 2025).


